Gegê Bombril

Alguém em algum lugar na longa e incrível trajetória do hoje maestro cravou-lhe um apelido pândego, mas muito simbólico do personagem: Gegê Bombril.


Esse cacondense de 69 ciclos faz jus a alcunha de 1001 utilidades. Músico, professor de Educação Física, diretor universitário, técnico de natação, secretário municipal, fisioterapeuta, cafeicultor, ator, teatrólogo, proprietário de restaurante… ufa!

Aos 49, o dono desse notável currículo multifacetado ainda buscava o sonho batuta das batutas. Do renomado Conservatório de Tatuí veio a almejada bolsa de Regência. As aulas seriam semanais, a grana era curta.

O jeito módico de vencer os 720 km —na época ele morava em São José do Rio Pardo— a cada sete dias só poderia ser sobre duas rodas. Durante os quatro anos do curso, Agenor Ribeiro Netto viajou quase 100.000 km montado numa valente Honda Sahara 350, enfrentando calor, frio, chuva, vento…

Ouvir, óbvio, é fundamental em aulas de Regência. O sono inevitável era rebatido com cafezinhos e Red Bulls. As refeições rápidas vinham nas formas de coxinhas, croquetes, empadinhas…

O menino que aos 6 começou estudar violino e acordeon, aos 53, depois de 48 meses de batalha permeada por estrada, aprendizado e cansaço, concluiu com os louros de melhor da turma o curso de Regência Musical no Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos. Sim, o mais velho da classe foi diplomado em 1º lugar.

Dali em diante as coisas aconteceram em passos Allegro. Vivace, talvez. Agenor, o maestro, liderou e organizou importantes movimentos musicais na região. A convite da EPTV, ele criou o Viola de Todos os Cantos, um festival de canções sertanejas raiz, o chamado “modão”, que teve 11 inesquecíveis edições deleitando um público total de 500 mil pessoas.

Foi, ainda, o responsável pela reativação da Orquestra Sinfônica de Poços de Caldas e idealizador, em 2006, do evento Sinfonia das Águas, que está integrado ao calendário cultural da cidade mineira. Desde 2010, o regente e a mulher Rita residem nessa estância turística.

Em São João da Boa Vista, maestro Agenor organizou a Orquestra Jazz Sinfônica que nos seus 6 anos de história tocou para mais de 300 mil extasiados espectadores em 34 cidades de São Paulo e do Sul das Minas Gerais.

Em uma, digamos, aguerrida militância musical, ele é entusiasta de repertórios populares, brasileiros ou não, nas orquestras. Trilhas sonoras de clássicos do cinema, facilmente identificáveis, também são arranjos que o maestro usa para levar música instrumental a um número maior de pessoas.

Esse ecletismo nas sinfônicas por ele regidas causa certo desconforto aos mais eruditos e puristas do mundo da música. Resistentes às partituras que fogem dos grandes clássicos, esses ortodoxos torcem o nariz para as multidões que deliram sob a regência do virtuose de Caconde.

Sobre isso, Agenor filosofa: “Não se ensina raiz quadrada a quem não sabe somar e subtrair. Não se pode cobrar do nosso povo uma cultura erudita se nós não temos uma cultura erudita. Nós temos uma riqueza musical miscigenada e devemos valorizá-la. Pedagogicamente, eu quero levar boa música ao máximo possível de ouvintes. E para isso, sem abrir mão da qualidade nos arranjos, eu adequo o repertório ao ouvido do grande público. Eu quero proporcionar sentimentos, emoção. Se eu não conseguir fazer o público se emocionar, não fiz bem o meu trabalho. Por que, nos dias de hoje, não posso tocar Mozart num arranjo de rock’n’roll?”.

Qualquer vivente que tenha na biografia percursos realizadores como o do cidadão Agenor Ribeiro Netto, deveria chegar aos 70 ativo, mas sem perrengues financeiros. Ele, ao contrário do que é o ideal de dignidade humana, ainda carece da dura labuta para sobreviver. E neste período pandêmico em que a atividade artística minguou, o maestro paga suas contas fazendo linguiça caipira. Sem perder o bom humor e a gana de viver, o polivalente Gegê Bombril acrescentou a charcutaria à sua interminável lista de, agora, 1002 utilidades.

Bravo, maestro!

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